Avaliação de Dor no Idoso

Avaliação de dor no idoso: proposta de adaptação do Geriatric Pain Measure para a língua portuguesa
Questionnaire of pain in geriatrics: adaptation proposal for portuguese language of Geriatric Pain Measure (GPM)

Sumário

O presente estudo tem por objetivo realizar a tradução e a adaptação do questionário “The Geriatric Pain Measure” demonstrando o caminho metodológico utilizado para a sua realização. O “Geriatric Pain Measure” é um questionário de rápida aplicação, fácil compreensão e com característica multidimensional. Há na literatura vários instrumentos validados, porém nenhum que tenha estas características descritas acima para o idoso. Numa tentativa de facilitar a avaliação daquele que é considerado o quinto sinal vital é que se propôs a tradução do GPM. A primeira fase já foi executada, na qual se realizou a tradução por tratar-se de uma escala com índices de validade e confiabilidade já reconhecidos, julgou-se suficiente validar a tradução. Seguiram-se as seguintes recomendações descritas por Guillemin et al. (1993). A sua aplicação inicial demonstrou que o GPM, em sua versão original, auxilia-nos a avaliar pessoas idosas com dores crônicas e o impacto que essas dores têm causado em seu humor, suas atividades de vida e, principalmente, em sua qualidade de vida. É de fácil aplicabilidade e compreensão para ser utilizado em idosos, não é um instrumento complexo e não demanda muito tempo em sua aplicação. Ficando clara a sua efetividade na sua utilização, para tanto este estudo terá seguimento e deverá ser publicado na íntegra posteriormente.

Sumary

The current study has the objective of doing the translation and adaptation of the “The Geriatric Pain Measure” questionnaire demonstrating the methodological way used to accomplish it. The “Geriatric Pain Measure” is a quick and easy  comprehensive application questionnaire with multidimensional characteristic. There are many valid instruments in the literature however none of them that have those above described characteristics for the aged. In a tentative of facilitating the evaluation of that one which is considered the fifth vital signal is that is proposed this GPM translation. The first phase was already executed, where the translation was accomplished for dealing with a scale with validation indices and trustworthiness known, it was judged enough to validate the translation. The following suggestions were described by Guillemin et al. (1993). The initial application demonstrated that the “GPM”, in its original version, guides us to evaluate the aged with chronic pain and the impact that these pain have caused in their humor, lifetime activities and principally in their quality of life. It is easily applicable and comprehended to be used in the aged, it is not a complex instrument and does not demand a lot of time for application. It is clear its effectiveness use, and for this, this study will be continued and must be fully published later.

Numeração de páginas na revista impressa: 62 à 65

Introdução

O envelhecimento populacional, resultado da redução da taxa de mortalidade e  aumento da expectativa de vida, é um dos grandes desafios que o mundo terá de enfrentar neste século. A população idosa é a parcela que mais cresce, segundo estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU), e em 2050, 22,1% da população do mundo terá 60 anos ou mais (aproximadamente 1,97 bilhão de pessoas)(1).

Em 2000, os idosos no Brasil já constituíam 8,56% da população total (14,5 milhões), assim, pode-se considerar o Brasil um país envelhecido, segundo os padrões da ONU.

Os avanços da medicina, o diagnóstico precoce e a prevenção de determinadas doenças, a ampliação das possibilidades de acesso aos serviços de saneamento básico, a alteração nos hábitos alimentares e de higiene, a prática de exercícios físicos, dentre outros fatores, contribuíram decisivamente para a aceleração do envelhecimento e melhora da qualidade de vida de todos. Entretanto, um dos fatores que mais interferem na tão sonhada qualidade de vida são as frequentes dores crônicas que acompanha grande parte desta população. Embora exista uma variedade de questionário para avaliação de dor e os mesmos tenham sido utilizados, nenhum é específico para idosos.

Para avaliação quantitativa de dor em jovens existem descrições de questionários unidimensionais e multidimensionais. Instrumentos unidimensionais, tais como Escala Visual Analógica e Escala Verbal, têm sido muito utilizados, porém muito criticados devido à incapacidade de capturar características multidimensionais da dor. Por outro lado, questionários multidimensionais, tais como McGill Pain Questionnaire e The Wisconsin Pain Inventory, são longos, difíceis de pontuar e aplicar em idosos.

O Geriatric Pain Measure (GPM) foi desenvolvido para ser uma escala de dor multidimensional, de fácil aplicabilidade e compreensão para uso ambulatorial em população idosa. Não se conhece publicação de tradução para a língua portuguesa, nem adaptação transcultural desse instrumento. Assim, dado este feito e devido ao crescente número de estudos em idosos com dor se criou a necessidade de aplicação de medidas delineadas especificamente para utilização em países cujo idioma não seja o inglês, também é importante, quando da aplicação de um instrumento validado em outro país, considerar as diferenças culturais.

A importância do tema “dor em idosos” e a ausência de instrumentos  multidimensionais de avaliação, que constitui limitação para a prática clínica e para pesquisa de dor em idosos, motivaram a elaboração deste estudo.

Solicitou-se, previamente, a autorização do autor para a utilização deste instrumento.

Objetivos

O objetivo deste estudo foi a tradução do “Geriatric Pain Measure” para a língua  portuguesa e a sua adaptação transcultural, demonstrando-se os caminhos metodológicos utilizados neste processo.

Método

Desenho do estudo: uma série de passos foi seguida. Por tratar-se de instrumento com índices de validade e confiabilidade já reconhecidos, julgou-se suficiente validar a tradução e adaptá-lo.

Guillemin et al.(1), analisando trabalhos que envolviam instrumentos de avaliação, propuseram um conjunto de instruções padronizadas para a tradução e adaptação transcultural desses instrumentos. Com esses conceitos e seguindo tais padronizações trabalhamos num protocolo de tradução e adaptação transcultural do GPM, com as seguintes etapas:

1. Solicitação da autorização do autor do trabalho original, para a sua utilização.

2. Tradução inicial: processo realizado por dois tradutores independentes, brasileiros e qualificados, cientes dos objetivos da tradução inglês/português. Enfatizou-se a tradução conceitual e não literária.

3. Avaliação da tradução inicial: uma vez traduzido para o português, o instrumento foi agora vertido para o idioma original, ou seja, para o inglês, e o resultado apresentado foi comparado ao instrumento de origem. Esta etapa foi realizada por outros dois tradutores que apresentavam um bom conhecimento dos dois idiomas e tinham como língua materna o inglês, os quais não tinham ciência dos objetivos da tradução.

4. Validação da tradução: revisão por um comitê de especialistas: formou-se um comitê de especialistas, composto por cinco membros multidisciplinares com conhecimento em dor. Tal equipe se constituiu de uma geriatra, uma fisioterapeuta, uma enfermeira, uma psicóloga e uma terapeuta ocupacional.  Esse comitê teve a responsabilidade de produzir a versão final do instrumento que estava sendo elaborado e, para isso, duas versões foram feitas. A primeira que não obteve concordância de 85% e uma segunda versão obteve concordância de todos os componentes do comitê.

Para a tradução e adaptação transcultural de um instrumento, alguns aspectos devem ser analisados e o foram neste trabalho:

· Equivalência semântica: baseia-se na avaliação da equivalência gramatical e de vocabulário. Muitas palavras de um determinado idioma não podem possuir tradução adequada para outros idiomas, como, por exemplo, a palavra outcome, que não possui uma única tradução adequada para a língua portuguesa, ou para palavras como dancing ou eating para idiomas que não adotam o gerúndio.

· Equivalência idiomática: a tradução de certas expressões idiomáticas é dificílima. Podemos citar, como exemplo, a expressão coloquial em inglês: “I am blue”, que significa nos Estados Unidos, estar deprimido. Se fosse traduzida para a língua portuguesa “Eu estou azul”, ficaria sem sentido ou poderia até ser entendida popularmente como se estivesse tudo bem com a pessoa, sentido totalmente oposto ao da língua inglesa.

· Equivalência experimental ou cultural: para uma boa tradução transcultural é importante que os termos utilizados sejam coerentes com as experiências vividas pela população à qual se destina, dentro de seu contexto cultural. Na versão para a língua portuguesa do HAQ(2), por exemplo, a sentença “utilizando um automóvel” foi substituída por “utilizando transporte público”, uma vez que muitos brasileiros não possuem automóvel.

· Equivalência conceitual: muitos itens nos instrumentos para avaliar a dor em pacientes geriátricos podem equivaler semanticamente, sem, contudo, apresentar equivalência de conceito, por exemplo, no contexto social de muitas culturas de países em desenvolvimento os termos “irmão” ou “tia”, podem significar mais do que um grau de parentesco.

Resultados

O resultado obtido, ou seja, um instrumento de avaliação de dor em idosos será apresentado no Quadro 1.

Discussão

A experiência dolorosa não se restringe apenas a sua dimensão, ou seja, não se restringe apenas a intensidade, sendo muito mais ampla. Há três dimensões da dor a serem consideradas: a sensorial-discriminativa, a motivacional-afetiva e a cognitivaavaliativa, todas sustentadas por sistemas fisiologicamente especializados no sistema nervoso central (SNC). A necessidade de abrangência desta realidade fez surgirem as escalas multidimensionais para a avaliação da dor.

A qualidade sensorial da dor se refere a característica de tempo, espaço, pressão e temperatura. Avaliações do componente afetivo abrangem termos como tensão, medo e expressões neurovegetativas que compõem a experiência dolorosa.

A escolha de um instrumento para mensurar a dor deve, antes de tudo, ser de fácil aplicabilidade e adequar-se ao nível de compreensão do paciente. Oferecer ao paciente uma “linguagem” para se fazer bem compreendido é, muitas vezes, o “elo” que falta entre ele e a equipe de terapeutas da dor.

O GPM é um instrumento de rápida aplicação, fácil compreensão para idosos e com característica multidimensional. Há poucos instrumentos semelhantes desenvolvidos para essa população, o que torna a sua comparação mais difícil.

O Questionário de Dor de McGill é o mais conhecido dos instrumentos  multidimensionais para medir a dor. São registrados a localização da dor, sua intensidade e o seu comportamento. É um instrumento complexo e demanda muito tempo para aplicação em pacientes com idade muito avançada e com outros fatores associados. Mas, até então, é a principal referência para avaliação de dor em idosos e já foi traduzido para o português, contudo, não seguiu as instruções padronizadas para a tradução e adaptação transcultural.

QuestionarioO Old Cart, sugerido por Rousseau em 1996, para a avaliação da dor no idoso, avalia  o início (onsef), a localização (location), a duração (duration), as características (character), os fatores agravantes (aggravating factors) e atenuantes (relieving factors) da dor, bem como os tratamentos aplicados (treatments taken). A Escala Funcional da Dor é um instrumento válido e sensível a mudanças no nível de dor nos idosos. Essa escala possui três níveis de avaliação: um componente numérico (0 a 5), um descritor da dor (sem dor a dor intolerável) e um funcional (sem limitações a incapaz de se comunicar verbalmente devido à dor). A dor pode ser relatada como ausente (escore 0), “tolerável” (escores 1 ou 2) ou “intolerável” (escores 3, 4 ou 5). O componente funcional torna o instrumento mais sensível a mudanças da dor e a correlação entre esse componente e o numérico permite que seja feita uma boa avaliação do paciente, mas também é um instrumento complexo e demanda muito tempo para aplicação em idosos.

O GPM, em sua versão original, auxilia-nos a avaliar multidimensionalmente as pessoas idosas com dores crônicas. Avalia a dor e o impacto que essa dor tem causado em seu humor, suas atividades de vida e principalmente em sua qualidade de vida. É de fácil aplicabilidade e compreensão para ser utilizado em idosos. Não é um instrumento complexo e não demanda muito tempo em sua aplicação.

No momento estamos em fase de aplicabilidade desse instrumento em idosos do ambulatório da Disciplina de Geriatria e Gerontologia da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP/EPM. Estudaremos as propriedades de medidas de consistência interna, reprodutibilidade e validade do instrumento GMP nessa amostra de idosos.

Os dados desse último processo, que serão publicados a posteriore, servirão de apoio científico para pesquisa de dor em geriatria.

Leitura recomendada

· Ferrel, BA Stein, WM Beck, JC. The Geriatric Pain Measure: Validity, Reability and Factor Analysis. JAGS, 2000 48:1669-1673.
· Garrow, AP Papegeorgiou, AC Silman, AJ Thomas, E Jayson, MIV Macfarlane, GJ. Development and validation of a questionnaire to assess disabling foot pain. Pain, 2000 85:107-113.
· Pimenta, CAM Teixeira, MJ. Questionário de Dor McGill: Proposta de Adaptação para a Língua Portuguesa. Rev. Esc. Enf. USP v.30 n.3 pág.473-83 dezembro 1996.
· Wall, PD & Melzack, R. Textbook of pain. Churchill-Livingstone, Edinburgh,1990.

Bibliografia

1. Guillemin, F Bombardier, C Beaton, D. Cross-cultural adaptation of health-realted  quality of life measures: literature review and proposed guidelines. J. Clin. Epidemiol. 1993 46:1417-32.

2. Ferraz, MB Oliveira, LM Araújo, PM Atra, E Tugwell, P. Crosscultural reliability of the physical ability dimension of the physical ability dimension of the health  assessment questionnaire. J Rheumatol 1990 17:813-7.